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Análise: legado de Castro é um atalho para o passado do RJ

Legado de Cláudio Castro é um atalho para o passado do RJ Um atalho para o passado. Assim pode ser definido o legado do governador do Rio de Janeiro Cláudio ...

Análise: legado de Castro é um atalho para o passado do RJ
Análise: legado de Castro é um atalho para o passado do RJ (Foto: Reprodução)

Legado de Cláudio Castro é um atalho para o passado do RJ Um atalho para o passado. Assim pode ser definido o legado do governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), que renunciou ao cargo nesta segunda-feira (23) na tentativa de se livrar de uma condenação por inelegibilidade. Desde a redemocratização, de Brizola a Wilson Witzel, nunca houve um político tão parecido com o governador Chagas Freitas quanto Cláudio Castro. Castro, como Chagas, está muito longe de ser um político carismático, mesmo sendo cantor gospel. Nem um, nem outro despertaram paixões no eleitorado. A ausência dessas qualidades não impediu que ambos tivessem importantes vitórias eleitorais, guardadas as abissais diferenças de épocas. LEIA MAIS Após renúncia de Castro, presidente do TJRJ assume o governo e tem 48h para convocar eleição indireta; entenda Cláudio Castro dá entrevista após operação policial que deixou mais de 60 mortos PABLO PORCIUNCULA / AFP Chagas foi governador da antiga Guanabara e depois do Estado do Rio durante a ditadura: de 1971 a 1975 e de 1979 a 1983. Sem grande carisma, tanto Chagas quanto Castro sabiam usar a máquina do Estado para vencer eleições e fazer maioria na Assembleia. Uma vez no poder, ambos partilharam o poder com a Assembleia Legislativa, loteando cargos, usando o empreguismo como ferramenta e o fisiologismo como método. A grande diferença é que Chagas, por ser aliado à ditadura, apesar de pertencer ao MDB, não tinha oposição livre como Castro, e a Justiça Eleitoral de sua época era de brincadeirinha. Chagas podia usar, e usou, a máquina como quisesse. Já Castro, justamente por governar num cenário democrático, sofre processo por cassação e inelegibilidade, acusado de usar a máquina pública para comprar um exército de “mercenários do voto”, cabos eleitorais pagos com dinheiro público. Chagas foi, e Castro é, líder regional cuja voz não ultrapassa as fronteiras do estado do Rio. “Eu não sei o que é montanha. Eu sei o que é morro”, dizia Chagas para mostrar seu desprezo pela política nacional. Um espanto para a população do Rio, acostumada a líderes que tinham desprezo pelo varejo da política local. Com Brizola à esquerda e Lacerda à direita, o foco do debate no Rio sempre esteve nos temas nacionais. O estado sempre ficava em segundo plano. Castro também ficou no meio de dois líderes carismáticos: Lula e Bolsonaro. Seu governo só teve repercussão nacional depois que a polícia deixou 120 mortos no Alemão, um dos morros que Chagas dizia conhecer bem. As favelas eram currais eleitorais do chaguismo por meio da política da bica d’água. Sem rede de abastecimento, moradores de favelas só conseguiam viver graças a elas. As bicas d’água, apesar de instaladas pelo governo, tinham dono: políticos aliados do governador. Chagas tinha o dom de transformar água em votos. Castro também fez sua política de bica d’água — de outra forma. O grande feito de seu governo foi privatizar a Cedae, empresa de saneamento e águas, o que acabou com as bicas de Chagas. Cerca de 1 bilhão de reais provenientes da venda foram torrados para ganhar a eleição de 2026, diz o Ministério Público. Assim como Chagas, Castro também fez a água se transformar em votos. Por sua inegável habilidade política (outro ponto de contato com Chagas), Castro poderia ter pavimentado uma estrada para o futuro. Preferiu ser um atalho para o passado.