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'Influência de cria': como Rocky atraiu milhões de seguidores ao contar com humor como é viver na Rocinha

Como Rocky atraiu milhões de seguidores ao contar com humor a vida na Rocinha “Eu percebo que as pessoas na favela crescem mais rápido porque criam responsa...

'Influência de cria': como Rocky atraiu milhões de seguidores ao contar com humor como é viver na Rocinha
'Influência de cria': como Rocky atraiu milhões de seguidores ao contar com humor como é viver na Rocinha (Foto: Reprodução)

Como Rocky atraiu milhões de seguidores ao contar com humor a vida na Rocinha “Eu percebo que as pessoas na favela crescem mais rápido porque criam responsabilidade muito cedo”. A primeira vez que chegou ao Rio, ainda criança, Bruno Thierry achava que viveria em Copacabana. O destino foi outro: a Rocinha, em um choque de realidade que viraria combustível para o futuro. Hoje conhecido como Rocky Cria, o influenciador soma mais de 5 milhões de seguidores nas redes sociais mostrando, com mais humor que crítica, o cotidiano da maior favela do país. Rocky é o primeiro personagem de série "Influência de Cria", que está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do "Influência de Cria" para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop. A nova série do g1 e do GloboPop mostra como criadores de conteúdo de comunidades brasileiras transformam vivências marcadas pela desigualdade em trabalho, audiência e influência. É o caso de Thierry, que antes de virar Rocky Cria enfrentou uma rotina comum a muitos moradores: começou a trabalhar ainda adolescente, aos 12 anos, dividiu o tempo entre escola, bicos e esporte – e aprendeu cedo o peso da responsabilidade. “Eu fui até o segundo grau completo, estudei, e depois foquei mais na luta, que era o que eu tinha para sobreviver. Eu comecei a fazer faculdade, mas eu não conseguia acompanhar, trabalhar e estudar”, conta o ex-atleta de luta livre, muay thai e boxe, que ganhou aí o apelido Rocky, do boxeador mais famoso do cinema, vivido por Sylvester Stallone. O início como influenciador surgiu da necessidade e da percepção de um talento. Depois de ser demitido na pandemia do cargo de vendedor de uma loja na Zona Sul, onde aprimorou suas habilidades para se comunicar, começou a fazer postagens nas redes sociais. Conheça a história do influenciador Rocky Cria na entrevista abaixo: Rocky Cria abre a série 'Influência de Cria' Arte/g1 Como foram sua infância e sua adolescência? "Eu nasci na Paraíba e aí minha mãe veio para o Rio de Janeiro. Meus pais se separaram, eu fui morar com a minha mãe na Paraíba e aí eu só vinha para o Rio de Janeiro passar férias. Então, quando eu vim para cá, o meu pai morava em Copacabana. Eu nunca pensei em morar numa favela. Eu sempre saía da Paraíba e ia pra Copacabana. Minha mãe casou de novo com um pastor. Só que eu, moleque de rua, ninguém conseguia me segurar, e ela queria que eu tivesse vida de filho de pastor. Nisso, fiquei sabendo que meu pai estava na Paraíba e eu não estava conseguindo estudar. Estava meio pra baixo. Falei: ‘mano, eu vou embora com meu pai’. Meu pai mora em Copacabana, vou voltar para o Rio de Janeiro, vou estudar e vou tentar a vida lá. Só que, quando eu cheguei aqui, não era Copacabana, era na Rocinha, e eu nunca tinha entrado na favela. Então, assim, pra mim foi um impacto. Assim que cheguei aqui, eu me envolvi com o esporte, comecei a treinar luta livre, em seguida fui para o boxe e depois continuei no muay thai até ficar grau preto, como se diz." Qual diferença você percebeu entre o lugar que você morava e a Rocinha? Rocky Cria Redes sociais “Eu percebi que aqui as pessoas amadurecem mais rápido. Você cria responsabilidade mais rápido. O meu pai sempre trabalhou demais, então a minha vida era ir pra escola, treinar e ter que ajudar também o meu pai. Então, no fim de semana, eu trabalhava como assistente de imagem para tentar ajudar meu pai e para tentar me ajudar também. Então, eu percebo que aqui dentro da favela as pessoas evoluem mais rápido porque elas criam responsabilidade mais rápido, tá ligado?” Como foi a reação da sua família com a Rocinha? “É bem complicado. A cereja do bolo é que, toda vez que eu ia visitar minha família na Paraíba, quando eu falava pra galera que eu moro na Rocinha, o tempo fechava. Falavam: ‘ah, mas na Rocinha? Mas lá só tem violência, só tem morte’. E eu defendia, porque a galera fala só o lado negativo, mas também tem o lado positivo das coisas. A gente gosta das coisas que elas têm de bom. Se você for olhar para o que tem de ruim, você não vai gostar de nada, tá ligado? Então, na internet, eu comecei a narrar, mostrar uma outra realidade, que era a minha realidade.” Então seu conteúdo é sobre a sua realidade? "A gente sabe que a favela não venceu. Quem fala isso é porque, eu acho, não entende." 'Ela vence todos os dias. Ela vence quando aparece uma UPA, ela vê isso como uma melhoria. O que eu mostro é a luta que a favela enfrenta todos os dias, mas de um jeito divertido para que outras pessoas se interessem também. Tem gente que fala que eu tô romantizando, mas isso não é romantizar, é mostrar a minha realidade." Já pensou em sair da comunidade? “Muita gente pergunta por que eu não saio da comunidade, e vamos lá. Eu morava de aluguel e hoje tenho a minha casa. Mas vou te contar qual é a parada. Eu, com 18 anos, meu pai fez uma carta à mão pra mim porque era meu sonho morar sozinho. E ele me ajudou me dando um barraco de madeira de dois metros quadrados, tá ligado? Foi um choque de realidade. Sabe o que é acordar com a barata na boca? Um gato dando cria embaixo do sofá? O bagulho é louco. Eu já fiz café com água da chuva. Eu sei o processo das coisas, eu sei o quanto é duro, eu sei o quanto isso vai te fortalecer no futuro. A vida não é fácil para ninguém. Como eu vou sair daqui se eu nem imaginava ter uma casa própria? Mas não é do dia para a noite que você vai mudar a sua vida. Eu acredito muito na Rocinha e amo esse lugar. Antes aqui não tinha hospital, UPA, hoje tem, tá ligado? Eu penso que aqui vai melhorar. Se um dia eu tiver a oportunidade de sair, também quero ter essa experiência, porque a gente não é preso a nada, mas, no momento, a minha visão é aqui, porque antes eu não tinha nada." Rocky Cria Redes sociais Como você começou a criar conteúdo? “Eu comecei na pandemia. Eu tinha um sonho, que era ser vendedor. Na minha realidade, não é qualquer pessoa que é vendedor de loja. Aqui dentro você precisa pelo menos estar cursando uma faculdade para conseguir um emprego de vendedor. A minha esposa conseguiu um emprego pra mim e eu comecei a vender lá. Eu era bom nisso. Lá eu aprendi a vender, a me relacionar com diversas pessoas, várias classes sociais. Foi uma experiência muito boa, mas curta, porque logo veio a pandemia e eu perdi meu emprego. Foi onde eu descobri a internet e comecei.” E como você começou a monetizar? “Foi uma virada de chave quando eu consegui monetizar. Eu perdi um emprego como vendedor e depois fui chamado de volta e fiquei trabalhando e postando. Eu ficava pensando: ‘cara, faço meus conteúdos, tá monetizando, mas eu tô casado e tenho um filho pequeno. Será que vou conseguir bancar minha família?’. Surgiu esse medo. E aí veio a minha primeira publicidade, que foi para o Serasa, e para mim foi a virada de chave, porque eu falei: ‘pera aí, eu fiz uma publicidade para o Serasa tendo o nome sujo, não tem como dar errado’. Aí eu saí do emprego e fui viver de internet.” De onde você tira suas ideias para os vídeos? “Os meus vídeos que mais viralizavam nessa época eram quando eu mostrava, por exemplo, um poste aqui na Rocinha, perguntando se onde as pessoas moram também é assim. E a galera ficava louca, porque é uma coisa muito surreal para quem é de fora. E aí eu ia vendo os comentários e aquilo me gerava mais conteúdos. Já ouvi gente perguntar se eu já pensei se algum dia eu não vou ficar sem conteúdo. Só que aqui todo dia tem uma questão, então todo dia vai ter vídeo novo e alguém querendo saber”. E como você enxerga a constância nas redes sociais? "Não existe dar 80% de você um dia. Você tem que dar 100% todos os dias. Se você quer crescer, você tem que estar todos os dias, o povo tem que dormir te vendo e acordar te olhando. A constância é o segredo, não é quantidade. A constância tem que estar todo dia ali também”. Rocky Cria Redes sociais Como é a sua relação com os jovens da comunidade? “Cara, é muito legal a minha relação aqui com os jovens e com todo mundo. Na verdade, quando eu comecei a criar conteúdo eu fiquei conhecido fora da comunidade e, por último, eu fui ser conhecido aqui dentro — aí é que o bicho pega. E eu acho muito legal, porque a gente pode influenciar, mostrar que é possível com telefone você poder mudar sua vida, tá ligado? Você pode mostrar sua realidade e ganhar grana com isso, tá ligado? Isso é bem legal, ainda mais porque ninguém imaginava que com telefone você ia mudar a sua vida, né?”. E quais são seus próximos projetos? “Então, eu tenho um sonho que eu estou revelando pra vocês em primeira mão, que é o seguinte: eu vim de projeto social. Eu sei o quanto um projeto social impacta diretamente na vida das pessoas, das finanças, na formação. Eu tinha um projeto de luta que acabou com a implantação da UPP, porque o bicho pegava de tiroteio direto e eu ali com várias crianças dando aula. Eu me sentia responsável se acontecesse algo e parei. Meu amigo Buchecha, que é campeão mundial, deu seguimento e faz esse projeto. Eu tenho o sonho guardado comigo que é de criar o Instituto Rocky para a criançada aqui da comunidade. Se um dia eu for sair da favela, vai ser com esse projeto pronto, que vai ser meu legado”. Hoje você se sente uma inspiração aqui dentro? “Eu nem tinha noção, mas hoje eu me sinto, sim, porque a gente anda pela favela, vê as crianças e elas se inspiram, perguntam como que faz e eu explico para elas. Eles já têm essa visão, são curiosos, eu acho que ajuda a criar esperança. Então, você que está me assistindo agora, estuda e acredita que você vai ser grande. Você vai ser gente mesmo que você continue morando na comunidade”.